Resenha | Dois Garotos Se Beijando - David Levithan


Nossos beijos eram sísmicos. Quando vistos pela pessoa errada, podiam nos destruir. Quando compartilhados com a pessoa certa, tinham o poder da confirmação, a força do destino.

David Levithan é um dos autores que ficou conhecido por suas parcerias com outros autores, mas que se mostrou bom demais pra precisar que seu nome fosse carregado com os de outros. Em Dois Garotos se Beijando, Levithan usa toda sua sensibilidade para mostrar a vida de vários personagens, mas o incrível é que ele consegue nos deixar apaixonados por cada um deles.

Um título gera repulsa e curiosidade depende de quem o pegar para ler. Mas o incrível da história é que esse título guarda uma das melhores histórias que já li em toda minha vida. Levithan é gênio no que se decide a fazer, e essa é provavelmente uma das suas melhores obras.

Descoberta, aceitação, preconceito, sociedade, política e a tão temida AIDS, são assuntos abordados no livro de uma forma direta, não dura ou ofensiva, mas como se um anjo nos contasse tudo àquilo pelos olhos dele. E é isso que parece, ao menos eu vi o narrador como um anjo que já passou por tudo aquilo e que agora apenas observa a evolução do mundo.

O silêncio é igual à morte, nós dizíamos. E por baixo disso havia a suposição, o medo de que a morte fosse igual ao silêncio.

Cooper é solitário e adora inventar personagens para bater papo em sites de relacionamento na internet, mas ele nunca puxa papo com alguém, o importante é ser desejado. Certa vez ele dormiu ali mesmo, em frente ao computador e no dia seguinte seu pai entra no quarto e lê as conversas da noite passada. Entre socos e ofensas Cooper acaba saindo de casa.

Neil e Peter formam um casal que já está junto a mais de um ano, a intimidade que existe entre eles é invejável, e eles formam aquele núcleo que mostra o simples. A família dos dois sabe quem eles são, a diferença é que a família de Peter o ama imensamente, e a Neil esconde a verdade sobre  filho.

Tariq sabe quem ele é e se orgulha disso, até a noite em que ele sai de uma festa e é agredido por vários outros garotos. Os hematomas, as costelas quebradas sumiram com o passar do tempo, mas por dentro Tariq mudou, e aquela ferida nunca sumiria.

Como você pode não ter esperança quando o mundo, por um instante, brilha em tom dourado?

Avery é transexual, cresceu sabendo que era diferente, e pra sorte dele seus pais sempre o apoiaram e procuraram os melhores médicos para que ele pudesse começar as mudanças, seu cabelo é rosa, e em um baile gay ele conhece Ryan, um garoto de cabelo azul. Logo eles percebem que algo bom está acontecendo ali, mas Avery tem medo do que a verdade possa fazer com Ryan.

Craig não é aceito por sua família, mas na verdade eles nem sabem, até que ele decide fazer uma manifestação junto ao seu amigo e ex-namorado Harry. Diferente de Craig, a família de Harry o aceita, e inclusive apóiam a manifestação dos dois. Mas essa manifestação vai mudar a vida de muitas pessoas, principalmente a de Craig.

Um livro que é muito mais que o próprio título. Que conta não apenas a história da nossa geração, mas da geração que anos atrás foi tratada como lixo e desconsiderada pela sociedade.

Se em algum momento da sua vida você ficou em dúvida entre ler ou não este livro, apenas uma resposta é necessária. Da próxima vez que você visitar uma livraria lembre-se de pedir por esse livro, e quando chegar em casa para lê-lo tire de sua mente tudo que você acha sobre ele. Todas as expectativas, tudo sobre a premissa, simplesmente esqueça.

Abra o livro e o encare com os olhos de um desconhecido, e sinta as palavras de Levithan entrarem dentro de você como uma pena, para te fazer sentir emoções dignas de um furacão.


Todas as vezes que dois garotos se beijam, o mundo se abre um pouco mais. Seu mundo. O mundo que deixamos. O mundo que deixamos para vocês.



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