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Angel's Journal | Perguntas

09:24

- Dor?
- O que essa palavra representa pra você?
- A partida de alguém que amo?
- Poderíamos chamar isso de saudade, não seria melhor?
- Não. Porque quando alguém se vai eu sinto dor.
- Tudo bem. Mas porque não podemos transfomar isso em saudade?
- Porque saudade? Existe algum problema em sentir apenas a dor?
- Não. Mas...
- E a solidão?
- O que tem a solidão?
- O que ela siginifica?
- Diga-me você.
- Porque você não me responde?
- Não sei definir solidão.
- Como não sabe? Nunca se sentiu só?
- Claro.
- Então porque não a define pra mim?
- Quando não tenho ninguém ao meu lado, é quando me sinto sozinho.
- Não perguntei quando se sente sozinho. Quero saber o que é solidão pra você.
- Não ter ninguém comigo.
- E se a pessoa que você ama vai embora? Você não se sente só?
- Também.
- Então você acha que podem existir duas formas de solidão?
- É o mesmo sentimento.
- Com sensações diferentes?
- Quando você se sente só?
- Responda.
- Creio que sim.
- Okay.
- Então, quando você se sente só?
- Ultimamente? Sempre.
- Mas não existem pessoas a sua volta?
- Pessoas? Como você?
- Isso.
- Existem.
- E de onde vem toda essa solidão?
- Não sei, talvez ela tenha assumido o lugar do meu amor.
- Mas você precisa tentar.
- Não preciso de nada.
- Mas...
- Quer saber, o tempo acabou e eu preciso ir.
- Mas ainda faltam vinte minutos.
- Na verdade o tempo acabou a muito tempo, e você não se deu conta

Angel's Journal | Deserto

20:09

A solidão havia tomado todas as minha emoções, minha companhia se tornou a areia que abrigava meu corpo e o vento que se apiedava de minha alma e vinha acariciar meu rosto nos dias mais quentes. Aquele deserto era a materialização do que se passava dentro de mim, e agora eu morava nele.

Muitos dias se passara até que durante um momento de fraqueza, onde eu queria que tudo apenas acabasse, a voz dela surgiu em minha mente. Ela não pedia pra eu ser forte ou para me manter de pé enquanto eu estivesse ali, ela apenas sussurrou baixinho em meu ouvido "Eu estou aqui".

No mesmo momento lágrimas que já haviam banhado meu rosto inúmeras vezes desde que fui deixada ali, começaram a deslizar pelo rosto, e um pequeno sorriso se formou no rosto, mas a dor de sorrir impediu que eu o mantivesse em meu rosto.

Naquela noite ao fechar os olhos sonhei com aquele abraço, com as palavras que sempre me traziam paz quando eu corria em meio a um furacão. Eu sabia que aquilo não era real, não poderia ser, mas de alguma forma meu coração decidira que era hora de relembrar tais momentos.

Ao amanhecer eu caminhei pelo infinito do deserto que me acolheu, mas minha mente e meu coração repousavam em um pequeno sofá que ficava de frente a lareira. Fui muito feliz naquele lugar, eu lembrava. Foram os momentos onde o sorriso morava em meu rosto, e a felicidade era o sinônimo de vida pra mim.

Músicas começaram a surgir em minha mente e quando senti minha garganta vibrar em meio aquelas palavras eu percebi que era possível voltar, e novamente eu escutei "Eu estou aqui". Meus joelhos cederam, e as lágrimas vieram com mais força dessa vez, fazendo meu corpo vibrar enquanto eu sentia toda a dor se esvaindo. Tudo que deixava meu corpo fraco foi levado pelas lágrimas e carregado pelo vento.

Abri meus olhos, e todas aquelas luzes me deixaram confusa por um tempo, quando enfim pude olhar para o lado eu vi que aquela voz realmente estava ali, o tempo todo me lembrando de que nunca sairia do meu lado, e permaneceria ali mesmo que eu gritasse pra ela ir embora.

O sorriso dessa vez não machucou meu rosto, na verdade ele havia encontrado o lugar onde realmente pertencia. Enquanto os lábios daquela voz repousavam em minha testa, e as lágrimas que lavavam meu rosto não eram mais minhas.

O deserto deixou de ser minha morada e o aconchego daqueles braços me lembraram que nunca estive sozinha. As músicas começaram a soar mais alto, as cores retornaram aos meus olhos, e a felicidade aos poucos pediu licença para retomar o seu lugar em minha vida.

Conto | Acorde de Uma Canção

14:59

Querida acorde. Daqui a pouco as visitas irão chegar e você precisa estar pronta.

Visitas? – minha voz parecia estar saindo de um túnel.

Imaginei que você tivesse esquecido – minha mãe falou com um tom de voz triste e depois sentou na beirada da cama – Seu tio está vindo nos visitar, e ele vai trazer seu primo. Lembra?

Claro que lembro meu tio e meu único primo. Meu primo que sempre foi insuportável, com suas brincadeiras ridículas sobre como seria maravilhoso se nos tornássemos namorados. Ridículo.

Lembro mãe. Já vou levantar tudo bem? A senhora já pode ir. – falei e dei as costas pra ela. Eu sabia que se fizesse aquilo continuaria dormindo por horas, mas ela não pareceu se importar.

Abri os olhos e a noite já havia chegado. Minha mãe não iria me matar com as visitas em casa, mas assim que possível ela cometeria um pequeno crime com sua filha adorada.

Você acordou. – a voz era doce, mas ainda assim fiquei assustada.

Mais que merda. – uma garota que aparentava ter minha idade estava sentada no chão com uma pilha de papéis nas pernas – Quem é você?

Bom, eu sou amiga do Clark. Não tinha para onde ir nas férias, e seu tio acabou me convidando pra vir com eles.

E porque diabos você está no meu quarto? – levantei e comecei a vestir alguma roupa.

Sua mãe falou que eu poderia dormir com você enquanto seus tios estão aqui. – ela levantou e veio em minha direção, seus olhos eram incrivelmente azuis. – Meu nome é Sabrina, prazer. – o sorriso estampava aquele rosto branco, quase transparente.

Sai sem cumprimentá-la de volta e bati a porta do quarto. Pensei que minha mãe fosse me matar depois, mas pelo que percebi o meu assassinato começou bem antes.

Corri até a cozinha e encontrei minha mãe conversando alegremente com nossos convidados. Fui até o lado da minha mãe, me aproximando o suficiente de seu ouvido pra que apenas ela escutasse.

Eu quero aquela garota fora do meu quarto, agora.
Ela me ignorou e olhou diretamente pra meu tio que estava do outro lado da mesa.

Então Raphael – ela falou olhando pra ele e depois desviando o olhar pra mim – já lhe contei que Sara foi escolhida como a melhor musicista da escola?

Não, você não havia me falado. – meu tio tinha o ar cansado de tantos anos trabalhando dentro de um caminhão – Parabéns garota, nós sempre soubemos que você nos daria muito orgulho.

Não gostava de começar nenhum tipo discussão, nunca. Mas, se era assim que ela queria. Eu teria que lhe dar com outra pessoa invadindo um lugar privado. Não sou uma filha rebelde, nunca fui, mas o fato de eu imaginar que tem outra pessoa no meu quarto já me deixa desconfortável.

Sai da cozinha com um sorriso amarelo do meu tio, e um olhar ameaçador da minha mãe. Não estava com fome e voltei direto para o meu quarto.

O que você está fazendo ai? – perguntei, minha colega de quarto estava debruçada sobre meu violão.

Tocando. Quer dizer, tentando tocar algo. Você me ajuda?

Tudo bem estava começando a gostar daquela garota. Nada me deixa mais feliz que alguém compartilhando do mesmo amor que eu. A música.

Bom, eu até queria te ajudar com algo, mas eu não tenho como posso dizer? Não tenho o dom de ensinar as pessoas. – me joguei na cama enquanto ela continuava me encarando, sentada do chão e com o violão sobre as pernas. – Aprendi sozinha, então não sei como ensinar outras pessoas.

Então ta bem. – seu olhar ficou triste – acho que vou voltar pra sala e ficar com seu primo, você o viu quando foi à cozinha?

Na verdade eu nem reparei.

Ela levantou e me entregou o violão, deu um sorriso de lado e saiu do quarto tão silenciosamente quanto entrou.

Comecei a dedilhar uma canção qualquer, meus ouvidos se inundando com aquele bater de cordas, e meu coração acompanhando o ritmo. Deitei e fiquei encarando o teto com o violão sob minha barriga. Meus dedos deslizavam por entre as cordas, e minha voz começou a se sobrepor ao dedilhar.

E ai Sara tudo tranqüilo? – era a voz do meu primo. Nem me dei ao trabalho de abrir os olhos – Que isso? Não vai falar comigo?

Não. E na verdade sua amiga está procurando você. Sabrina, certo? Acho bom você encontrá-la, ou ela pode se perder nesse palacete.

Quando Sabrina retornou ao quarto, eu estava levantando da cama pra guardar o violão, e só então percebi que passei mais de três horas tocando.

Toca pra mim – ela pediu com aquele sorriso que parecia nunca sair do seu rosto. Incrível, eu nunca havia conhecido alguém assim.

O que? – a vergonha se expressou em meu rosto – Não, eu, an...não toco pra ninguém. – como fui ridícula.

Por favor? – o sorriso sumiu, e seu rosto assumiu um olhar de criança quando precisa convencer um adulto a lhe dar algo.

É melhor não. Desculpe. Acho melhor irmos dormir.

Mas você acabou de acordar. Porque não vemos um filme?

Ok, se isso fizer você parar de me pedir coisas - falei sorrindo e ela retribuiu.

Assistimos ao Senhor dos Anéis, e ela suspirava a cada aparição do Legolas. Foi divertido, e quando dormimos já eram quase três da manhã, ela na cama, e eu em um colchão no chão.

Acordei escutando Sabrina murmurando algo inteligível e se debatendo na cama. Levantei e me aproximei dela tentando acordá-la. Quando abriu os olhos eles pareciam mais azuis que da ultima vez que eu os havia visto. Ela estava muito assustada.

Você está bem? Foi só um pesadelo. – falei enquanto deslizava as mãos por sua testa. Lágrimas desciam de seu rosto, e em nenhum momento ela me encarou.

Obrigada por ter me acordado – ela disse – pode ir deitar, eu já estou bem.

Tem certeza? Se quiser posso acender a luz, ou quem sabe podemos continuar vendo O Senhor dos Anéis.

Não precisa – ela sorriu, mas o sorriso não parecia nada com o que ela havia me dado horas atrás.

Voltei pro colchão, fechei os olhos e dormi. Durante quase todas as noites ela chorava e tinha pesadelos. Eu sempre levantava e ia acordá-la, ela nunca queria que eu ficasse perto, sempre me mandava de volta para o colchão e voltava a chorar.

Faltava uma semana pras férias acabarem, e minha mãe decidiu visitar minha avó com meu tio e meu primo. Eu teria ido se ela tivesse se dado ao trabalho de me chamar, só soube do pequeno passeio quando acordei e vi o recado sobre a mesa.

Bom dia querida, estou indo visitar a vovó com seu tio e seu primo. Espero que não tenha ficado triste por não tê-la acordado, só queria que desancasse um pouco mais, já que todas as noites você acorda com os pesadelos da Sabrina.

Joguei o recado no lixo e preparei o café da manhã. Sabrina comeu um pouco e ficamos falando sobre música durante longas horas. Quando o relógio marcava nove da noite meu celular tocou, era minha mãe, avisando que não voltaria naquela noite.

Bom, acho que vamos ter que dormir sozinhas hoje. Minha mãe decidiu ficar na casa da minha avó – Sabrina sorriu, e voltou sua atenção para o programa de televisão que estava acompanhando.

Dormimos, e como de costume, Sabrina começou com seus pesadelos no meio da madrugada. Levantei novamente e caminhei pra acordá-la. Ela abriu os olhos e disse que eu poderia voltar a dormir.

Sai de perto da cama e peguei o violão, meus dedos começaram a tocar aquelas cordas tão familiares, enquanto eu cantava pra ela. Em poucos segundos ela levantou e ficou me olhando sem sorrir, apenas observando.

Lentamente ela saiu da cama e sentou-se ao meu lado. Sem falar nada ela tirou o violão de meus braços e se colocou no lugar dele, fazendo seus longos cabelos loiros deslizarem por entre as minhas mãos.

Obrigada- foi a única palavra que ela falou antes de dormir.

O final das férias chegou. Meu tio e minha mãe haviam ido a procura de algo pra que ele levasse de recordação, enquanto meu primo estava na casa de um antigo amigo, e Sabrina fazia as malas em meu quarto.

Sentirei saudades – falei.

Não vai sentir nada, só atrapalhei você por todo esse tempo, nem dormir você pode.
Levantei e fui até ela, parando a poucos centímetros de seu rosto.

Logo, logo eu irei visitar você, e lhe ensinarei alguns acordes pra que você possa cantar pra mim. – antes que pudesse me afastar ela me deu um beijo doce e delicado.


Contarei cada segundo – ela falou e eu sorri.

Angel's Journal | Só Quero Ser Livre

21:31

Muitas vezes nós quebramos, muitas vezes é difícil, outras nem tanto. Em determinado momento de nossas vidas sem sentido, queremos um motivo para seguir em frente, um motivo que nos mantenha de pé e que não deixe nossas lágrimas deslizarem por nosso rosto.

Ultimamente minha alma tem passado por uma reconstrução tão violenta que meu corpo não está mais reagindo. É complicado imaginar como esse tipo de coisa pode se tornar tão destrutivo pra alguém? Ou seria incrivelmente complicado você parar e pensar apenas por um momento que a cada vez que fala destrói um pouco do que exite de bom em mim.

Cresci e aos poucos aprendi a ignorar opiniões alheias e comportamentos ofensivos em relação a como me visto, ou em relação a quem eu sou, mas isso se torna impraticável quando se é obrigada a permanecer ao lado de quem rouba uma parte de você a cada segundo.

Será que se você soubesse a dor que está me causando pediria desculpas? Será que se arrependeria de espalhar boatos sobre quem não sou? Provavelmente não. Sua vida se resume a ser melhor que os outros, a ser melhor que eu.

Durante toda minha vida sempre quis ser única, livre, feliz...mas isso me custa tanto, porque as pessoas se sentem livre para fazerem parte da minha vida, quando em nenhum momento abri meus lábios e dei tal permissão.

Queria que você apenas soubesse que minha alma ainda luta pra permanecer bem, que meu corpo se recusa a se entregar, e que aos poucos tudo se tornará algo pelo qual passei e do qual me recuperei, ou não, isso é tão relativo que uma certeza seria incerta.

Espero que um dia eu retorne a você não como venho agora, me lamentar, ou me colocar como você chamaria de vítima, mas espero retornar agradecendo por estar me respeitando, e silenciando em relação a minha vida.

Pena & Tinta - Música

01:00


Minha mãe me disse que mesmo antes de nascer eu já tinha uma audição de musicista, que meus movimentos eram descritos de acordo com a batida da música. Outro momento que ela costuma descrever sobre os meus momentos ainda dentro de seu ventre, é que eu ficava em um estado de paz incrível quando ela colocava musica clássica.

Nasci, o teclado e o violão se tornaram meus outros braços e pernas, com eles eu me sentia completa, nada no mundo era melhor que a sensação de escutar uma canção e saber que suas mãos é que estão dando vida a ela.

Tornei-me amante do rock. Voltei anos atrás pra reviver astros como Led Zeplin e Fred Mercury. Dormi ao som de Nirvana e acordei com paz de King of Leon. Com tempo conheci vozes como a de Renato Russo e Cazuza, chorei escutando Cassia Eller e me tornei uma rebelde ao lado da Pitty.

Quando me tornei adolescente, comecei a ter um pouco de Amy Lee e Avril Lavigne. Comecei a fazer minhas festas particulares  ao som de Kesha e Lady Gaga. Katy Perry chegou logo depois.

Cresci, meu coração bate no ritmo da música caribenha de Rick Martin e dança as coreografias Beyonce. Minhas mãos tocam canções de Ed Sheeran e Clarice Falcão. Minha voz presta homenagem a Birdy, e meus ouvidos escutam tudo e fazem de cada canção um aprendizado e uma descoberta.

Hoje abro os olhos ao som da P!nk cantando a música da minha vida. Tomo café da manhã ao de Flashlight da Jessie J. No caminho até o trabalho ouço de Epica a Christina Aguilera. Volto pra casa com a voz doce da Taylor Swift, e durmo com a melodia de Piano Guys.

Desde sempre sou amante da música, seja ela antiga ou atual, tradicional ou revolucionária, Música é um estado de espírito, as letras cantam o que se passa na minha alma, e as melodias são as partituras do meu coração.

Pena & Tinta é um projeto de escrita criativa com o objetivo de criar textos (crônicas, contos, poesias, relatos pessoais etc) mensalmente em cima de um tema predeterminado. O tema de junho foi Música, e se você quiser participar, é só acessar o grupo no Facebook :)

Angel's Journal | Despedida

16:01

Dizem que os melhores textos são escritos enquanto lágrimas borram os olhos de quem os escreve. Supus que isso fosse verdade, e agora ganhei a certeza de um ditado vivendo minha própria dor.

Sobre as lágrimas, bem, elas estão rolando em meu rosto agora. É complicado respirar enquanto escrevo tais palavras, a dor é algo muito complicado de ficar dentro de nós, principalmente dentro de mim. Meu coração é daqueles guerreiros de grandes batalhas, já viveu por muitas guerras, mas agora é chegada a hora de aposentar esse tão bravo guerreiro.

 Chegou a hora de seguir sozinha escondida por entre as gotas de chuva, de caminhar sozinha, rumo aquele destino que antes era certo, mas que agora é tão obscuro quanto à noite que cai sobre mim.

Eu poderia ter vivido sem tudo isso desde o começo, era algo comum pra mim sabe? A solidão. Ela sempre me foi legal, nunca me machucou e me deixou fazer tudo que eu quisesse com minha vida.

Mas eu me apaixonei, não como nos livros, me apaixonei sabendo que poderia acabar que eu podia sofrer, mas não queria acreditar nisso, até que aconteceu. Simplesmente acabou, simples assim, sem aviso e sem sorrisos. Acabou da mesma forma como começou, de repente.

Meu coração ficará para trás escondido naquela caixinha que um dia guardou lembranças boas de um amor agora esquecido, ficará lá até ter forças para suas últimas batidas, viverá tempo suficiente para como eu aceitar a perda de um grande amor, e aprenderá assim como eu, que nem todo o amor do mundo é suficiente para um final feliz.


Pena & Tinta | Nostalgia

11:02
Já passa das quatro da tarde, pego meu cobertor e uma xícara de chocolate quente enquanto caminho até minha varanda. Sento-me em minha poltrona favorita enquanto observo o mar dançando com toda sua beleza, refletindo a luz do sol que aos poucos começa a se pôr, tocando uma canção que me é tão familiar.  A maresia inunda meu olfato e um sorriso surge em meu rosto.

Recordo-me que anos atrás eu não costumava ficar sentada em poltronas enquanto observava o mar. Eu gostava de sentir meus pés na areia, de correr sem rumo enquanto minha irmã tentava de todas as formas resgatar sua caçula que vivia feliz demais.

Depois de um dia repleto de aventuras na praia ela me levava de volta pra casa, tomávamos um banho que na época era tão divertido quanto correr na praia, e dormíamos por horas sem nenhum tipo de preocupação.

Quando acordávamos com o sorriso encantador de nossa mãe descíamos as escadas quase nos jogando no último degrau, vivíamos em uma eterna competição de quem chegava primeiro em tudo, ela sempre ganhava, e quando eu ganhava era porque ela tinha deixado, pra me fazer mais feliz.

Depois do jantar eu ficava dentro do quarto dela por um bom tempo, ela nunca foi uma irmã chata. Sempre me deixava passar boa parte da noite com ela, e sempre me mostrava os livros novos que tinha na prateleira, e sempre me contava como era uma festa de verdade, com todos aqueles adolescentes reunidos em só lugar, prontos para destruir tudo.

Certa vez ela pediu que eu fechasse os olhos e colocou seu headphone em meus ouvidos enquanto a música começava em seu ritmo compassado. Nirvana, lithium era essa a música. Quando abri os olhos com a música ainda tocando alto o suficiente para que ela escutasse sem precisar colocar o headphone, vi que ela me encarava e dublava a música de acordo com as palavras de Kurth Cobain.

Agora, sentada aqui e observando toda essa paisagem iluminando cada parte dos meus olhos, consigo enxergar o quanto tive uma infância mágica. Era exatamente isso que parecia naquela época e é exatamente assim que se parece agora.

Nem sempre pude ter o que queria, mas sempre tive o que precisava, e devo grande parte disso a minha mãe a minha irmã, que fizeram da infância uma das épocas mais especiais da minha vida.

“O que você está fazendo ai?” levanto os olhos para ver que minha irmã se juntou a mim na varanda e começa a observar o mar como eu. “Lembrando” respondo, e ela sorri. Depois de tantos anos juntas não são necessárias muitas palavras pra ela saber exatamente o que estou falando.

“Isso é um pouco nostálgico não acha? Ficarmos sentadas aqui observando essa praia?” Faço que sim com a cabeça, e uma lágrima desce pelo meu rosto. Então ela levanta e diz “eu vou chegar primeiro” e sai correndo rumo a praia, enquanto eu jogo o cobertor de lado e saio apressada correndo logo atrás dela, pode ser que ela me deixe ganhar.

Pena & Tinta é um projeto de escrita criativa com o objetivo de criar textos (crônicas, contos, poesias, relatos pessoais etc) mensalmente em cima de um tema predeterminado. O tema de junho foi Nostalgia, e se você quiser participar, é só acessar o grupo no Facebook :)
 
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